Fim da
Reserva Global de Reversão faria preço da cobrança cair 2%
Apesar da pressão do setor industrial, a votação que amplia a RGR até 2035 está
prevista para amanhã
O governo federal diz-se preocupado com o custo da energia, mas deve conseguir
amanhã renovar por mais 25 anos um encargo que custa R$ 2 bilhões por ano na
conta de luz dos brasileiros, que hoje já é uma das mais caras do mundo.
Serão R$ 50 bilhões em recursos que sairão do bolso dos consumidores para o caixa
do governo até 2035.
O fim desse encargo reduziria em 2% a conta de luz dos consumidores do país,
segundo informa a Abradee (Associação Brasileira de
Distribuidores de Energia Elétrica).
A cobrança deveria ser extinta em janeiro deste ano, mas a renovação foi
enxertada na MP 517, medida provisória que versa sobre vários assuntos, como
Fundo de Marinha Mercante e incentivo a energia nuclear.
A RGR (Reserva Global de Reversão), encargo criado em 1957, nunca foi usada para
o fim para o qual foi criada-indenização de concessões retomadas pelo governo.
O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, mobilizou sua base no Congresso e
participou de encontros com lideranças dos partidos a fim de pressioná-los para
a aprovação do texto tal como encaminhado pelo governo.
O pedido de renovação da RGR até 2035 foi um dos últimos atos do ex-presidente
Luiz Inácio Lula da Silva.
SEM EFEITO
A mobilização do setor industrial para tentar, ao menos, incluir no texto um
dispositivo para a redução gradual desse encargo resultou inútil. Nem a
audiência pública prevista no Congresso para a discussão do assunto chegou a
ser feita.
Um grupo de 19 associações industriais chegou a criar um blog chamado
"Basta de RGR" para tentar mobilizar o país contra a decisão de
renovar o encargo, um dos 11 que estão ancorados hoje na conta de luz.
O deputado federal João Carlos Bacelar (PR-BA),
relator da medida provisória, leu o relatório nesta semana. A MP deve ir a votação na Câmara amanhã.
Disso depende a votação do Código Florestal, que trancou a pauta da Câmara. A
MP 517 ainda precisa passar pelo Senado e ir à sanção presidencial antes de 1º
de junho, quando a MP expira.
Bacelar informou que tentará, ao menos, tornar a
aplicação e a gestão do recurso mais transparente, mas não há garantias de que
isso passe na votação. Hoje, todo o recurso da RGR é gerido pela estatal Eletrobras.
Até o fim do ano passado, o fundo da RGR tinha R$ 15 bilhões. Desse total, R$ 9
bilhões estavam contingenciados pelo governo e os
demais R$ 6 bilhões foram aplicados em projetos, como o Luz
para Todos e outros programas. A maior parte dessa fatia é destinada aos
projetos das subsidiárias da Eletrobras.
A indústria afirma que o acúmulo de encargos e tributos sobre a conta de luz
fez a tarifa de energia dobrar nos últimos 10 anos, custo que tem contribuído
para a perda de competitividade do setor.
"O próprio governo dá sinais de que está
preocupado com o custo da energia e reconhece que isso é um problema. Poderia
usar o fim da RGR para evidenciar isso", diz Paulo Pedrosa, presidente da
Abrace (associação de grandes consumidores industriais de energia e de
consumidores livres).