A Fazenda
de São Paulo comemora uma decisão que considera emblemática para efetivar a
substituição tributária do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços
(ICMS) no setor de energia elétrica. Num único recurso ao Supremo Tribunal
Federal (STF), a Procuradoria Geral do Estado conseguiu derrubar três liminares
que beneficiavam a Tractebel, Tradener e Campos
Novos. As três comercializadoras haviam questionado
um decreto paulista que implantou a substituição tributária na venda de energia
a consumidores livres.
O decreto gerou questionamentos porque tornou as distribuidoras responsáveis
pelo recolhimento do imposto por substituição tributária. Até então, o ICMS
dessas operações era recolhido pelas próprias comercializadoras.
A substituição tributária é uma sistemática aplicada pelas Fazendas estaduais
como forma de combate à sonegação. No caso da energia elétrica vendida a
consumidores livres, a mudança aconteceu porque, segundo a Fazenda, grande
parte das transações não era declarada.
No recurso ao STF, a procuradoria alegou que, com a implantação da substituição
tributária, percebeu-se que a evasão era superior à estimada. O novo regime de
cobrança do imposto foi aplicado a partir de junho de 2009, quando a Fazenda,
segundo a procuradoria, constatou aumento de 58% na arrecadação mensal de ICMS.
Segundo os cálculos da Fazenda apresentados no processo, as liminares
concedidas às empresas representavam R$ 240 milhões anuais para a arrecadação
do imposto.
Segundo informações da Fazenda, usadas no julgamento, atuam no Estado de São
Paulo aproximadamente 50 comercializadores livres,
que fornecem a 600 consumidores livres. Um comercializador
pode firmar contrato om mais de 30 empresas e cada
consumidor livre pode ter mais de um comercializador.
As liminares das três comercializadoras foram
inicialmente derrubadas por decisão do presidente do Supremo, Cezar Peluso. A Tractebel e a Tradener
apresentaram novo recurso contra a decisão de Peluso,
mas o plenário do Supremo manteve a decisão. A Campos
Novos Energia pediu desistência da ação.
A confirmação pelo plenário do Supremo é considerada importante vitória pela
procuradoria paulista, por ser precedente importante a favor da Fazenda para
outro julgamento em curso no STF. Trata-se da ação direta de
inconstitucionalidade (Adin) que questiona o mesmo
assunto, levada ao Supremo pela Abraceel, associação
que reúne as comercializadoras.
O subprocurador-geral do Estado na área do contencioso, Eduardo José Fagundes,
diz que a substituição tributária é um dos assuntos prioritários na defesa da
Fazenda Estadual. "Cada questionamento é tratado como um caso emblemático
e tem acompanhamento especial." Além dos memoriais com os argumentos
jurídicos, cada processo, diz, possui estudos sobre o impacto
econômico-financeiro resultante de uma decisão contrária à Fazenda.
Walfrido Avila, presidente
da Tradener, diz que não foi a
aplicação da substituição tributária que proporcionou aumento na arrecadação de
ICMS sobre energia a consumidores livres. "A arrecadação cresceu porque o
sistema foi aplicado quando começaram a aumentar as operações no mercado
livre", alega.
Segundo Avila, a substituição tributária no segmento
prejudica o setor. Ele argumenta que as distribuidoras não poderiam recolher o
imposto no lugar das comercializadoras, porque elas
não fazem parte do contrato de venda da energia livre. Avila
diz que, para viabilizar o correto recolhimento do ICMS sobre essas operações,
as comercializadoras teriam de informar à distribuidora o valor de seus contratos. Esses dados,
porém, são considerados estratégicos. "As distribuidoras, na verdade, são
concorrentes das comercializadoras no fornecimento de
energia", diz ele.
A solução da Fazenda paulista para evitar que os dados das comercializadoras
fossem transmitidos às distribuidoras foi estabelecer a substituição com o ICMS
recolhido sobre médias de valores praticados no mercado livre.
As médias, porém, diz Avila, trazem outros problemas.
Elas podem dar origem a um recolhimento de ICMS maior ou menor que o devido.
"Se as distribuidoras recolherem um valor menor do que o efetivamente
devido, pode haver repercussões futuras para as comercializadoras."
O setor diz ainda que a elaboração de médias pela Fazenda estadual pode gerar
também recolhimento a mais do imposto. Ou seja, um custo adicional, que tira a
competitividade da energia vendida no mercado livre.
Na gestão do governador José Serra (PSDB), o setor de energia elétrica chegou a
fazer uma proposta alternativa para cobrança do ICMS, mas a Fazenda não
aceitou. Além de aguardar a evolução das ações no Judiciário, a ideia, diz Avila, é tentar
retomar a discussão do assunto com o novo secretário de Fazenda, Andrea Calabi.